A melhor oportunidade para Fonseca
O que esperar do brasileiro na gira norte-americana.
João Fonseca repetiu este ano sua melhor campanha em Wimbledon, chegando à terceira rodada com vitórias sem perder sets sobre Jesper de Jong e Roberto Bautista Agut — até cair em sets diretos para um Safiullin em estado de graça. Há dias em que não há muito o que fazer, e esse foi um deles. O momento, no entanto, é positivo: após uma excelente participação semanas antes em Roland Garros (quartas de final), João se despede da grama como 27º do mundo (1.710 pts) e tem pela frente possivelmente a sua melhor oportunidade do ano na gira que desemboca no US Open.
Como de costume, sua equipe priorizou descanso adequado e tempo em casa na escolha do calendário: treinando no Rio (sua cidade natal) desde o fim de Wimbledon, João participou recentemente do torneio-exibição UTS e cumprirá agenda de patrocinador antes do seu primeiro compromisso na gira norte-americana: o Masters 1000 de Montreal. Segundo João, a escolha de não jogar o ATP 500 de Washington foi consciente e parte de um planejamento maior que considerou todo o restante da temporada.
Aqui existe uma crítica válida: João joga menos torneios do que se esperaria de um jogador de 19 anos, no auge físico e com muita experiência ainda a ser adquirida. Eu já compartilhei desse pensamento, mas hoje entendo as escolhas e vejo a coerência. Ele e as pessoas que gerem a sua carreira não estão pensando em chegar pontualmente ao top 5 ou em ganhar um único Grand Slam; a intenção é se manter entre os melhores tenistas do mundo durante muitos anos e, assim, dar a ele a melhor oportunidade de brigar recorrentemente por grandes títulos. Em um esporte com um custo físico sem igual e que vê suas principais promessas sistematicamente fora de combate (vide Draper, Mensik e Fils), fica difícil discordar dessas escolhas. O tempo dirá.
E é justamente na gira norte-americana que vejo a melhor oportunidade do ano para Fonseca. Apesar dos bons resultados no saibro — incluindo seu primeiro título ATP, em Buenos Aires, e as recentes quartas de final em Roland Garros — e de o próprio João já ter declarado preferência pela superfície, minha leitura é diferente: a quadra dura é o terreno mais fértil para o seu jogo e onde demonstrou seu melhor nível. Exemplos não faltam: vitória sobre Rublev no Australian Open (que apresentou João oficialmente ao mundo do tênis); jogo disputadíssimo em dois tie-breaks contra Sinner (que precisou salvar três set points e, dias depois, seria campeão do torneio); e, claro, seu título no ATP 500 da Basileia.
A matemática reforça a oportunidade: João defende apenas 110 pontos em toda a gira — menos do que valem as quartas de final de um Masters (200). Quase tudo que fizer é lucro de ranking, e a régua inverte em outubro, quando ele volta à Europa devendo os 500 do título da Basileia. O único fantasma tem histórico: João ainda é um jogador que precisa de sequência para jogar em alto nível e costuma performar mal depois de longos hiatos fora do circuito. Não espero um ótimo primeiro jogo, mas espero um João que saiba vencer mesmo estando “frio”.
A explicação técnica para a leitura acima é relativamente simples, mas possui um ângulo ainda pouco explorado. É natural que o jogo agressivo de João, sustentado pela sua capacidade de comandar os pontos com seu saque e primeira bola, especialmente de forehand, se transfira de forma mais efetiva para a quadra dura. Contudo, essa superfície possui dois outros aspectos que, a meu ver, favorecem ainda mais o jogo do nº 1 do Brasil. Vamos a eles.
Em primeiro lugar, a movimentação. Não é novidade que a movimentação segue sendo um ponto de atenção para Fonseca. Apesar de ter melhorado bastante sua velocidade e reação na corrida para frente (pense em chegadas em bolas curtas), ainda o vejo atrás de seus pares no quesito movimentação lateral e recuperação do centro da quadra, que é, certamente, o grande diferencial dos melhores jogadores. A quadra dura é uma aliada, pois tende a nivelar o jogo ao reduzir a vantagem de tenistas com melhor movimentação — característica exacerbada pelas superfícies naturais.
O outro aspecto é ainda menos falado: o quique previsível. É inegável que Fonseca tem um jogo de margens apertadas — muita agressividade e tentativas de winners de todos os lugares da quadra. Nesse cenário, o quique previsível que a quadra dura proporciona torna o processo mental de decisão mais simples e mais limpo, que é exatamente o que um jogador como João precisa. Para muitos essa afirmação pode parecer um detalhe ou um exagero, mas quando seu jogo vive de margens mínimas, 1% a mais de precisão pode ser um divisor de águas.

Publicado originalmente na Edição 002 →