Artigo — 10 de ago 2026

A Segunda Onda

A próxima 'nova geração' já chegou.

Pôr do sol na quadra central de Montreal
Minas Panagiotakis via ATP

Das oito vagas nas quartas de final do Masters 1000 de Montreal, quatro pertencem a jogadores com 21 anos ou menos — Jodar (19), Tien (20), Mensik (20) e Mérida (21) —, número que seria ainda maior se Fonseca (19) tivesse vencido seu jogo ontem pelas oitavas. Isso não é simplesmente uma boa semana para os mais novos, mas sim a materialização de uma tendência que já vínhamos observando.

Por falta de um nome melhor, passarei a chamar essa tendência de Segunda Onda. Explico: no tênis, com notáveis exceções que comprovam a regra, os talentos geracionais costumam surgir em ondas. Os melhores tenistas surgem acompanhados de outros grandes tenistas e, na sequência, há um longo período de calmaria sem grandes novidades até que a próxima onda chegue.

E é aqui que 2026 quebra o padrão: a Segunda Onda não esperou a calmaria. Após o surgimento de Alcaraz, Sinner, Rune, Draper e Fils, seria natural que a geração seguinte tivesse muita dificuldade em se estabelecer, pois estaria disputando espaço com essa primeira onda, com os tenistas da chamada geração perdida (Zverev, Medvedev e Tsitsipas) e, ainda, com o interminável e brilhante Djokovic.

Não é isso que estamos vendo. Apesar de ainda não conseguirem tirar sangue de Alcaraz e Sinner (foco no ainda), os tenistas da Segunda Onda não mostram reverência paralisante pelo topo do tênis e já tratam o top 20 como seu lugar de direito. Não é opinião, é fato.

Basta analisarmos o que vimos nas últimas temporadas: Mensik roubou um Masters 1000 debaixo do nariz de todo o circuito (Miami 2025), derrubando Djokovic na final; Jodar está avassalador e possivelmente terá a ascensão mais rápida da história (top 100 > top 10); Tien acaba de tratar Tommy Paul (seu veterano) como verdadeiro sparring em Montreal; Fonseca levou Sinner a dois tie-breaks em Indian Wells e derrubou Djokovic no quinto set em Roland Garros — e todos sabemos que o quinto set é território do sérvio; e Mérida demonstra total naturalidade em estar nas quartas de um Masters 1000, sendo que ganhou seu primeiro jogo ATP no início deste ano e, antes do Canadá, não tinha sequer uma vitória em quadra dura (falaremos dele nesta edição).

Mais do que os títulos que essa próxima ‘nova geração’ já ganhou (e eles existem), o que mais chama atenção é a atitude. Nós nos acostumamos a ver tenistas jovens olhando para seus ídolos com um misto de admiração e medo, o que quase sempre fez com que o jogo fosse perdido ainda no vestiário. O exemplo clássico disso é a final de Roland Garros 2022 entre Nadal e Ruud, quando o espanhol, com o pé esquerdo dormente de tanto anestésico local, aplicou 6-3, 6-3 e 6-0. E aqui não passamos pano para o Big 2: logo no ano seguinte, Alcaraz deixou a aura de Djokovic vencê-lo na semifinal do Grand Slam francês.

O entusiasmo deste editor, no entanto, não pode falar mais alto do que a régua da casa. A Segunda Onda veio no embalo da primeira, mas ainda não tem nem metade da força dela.

No surfe, a segunda onda da série costuma ser melhor, pois entra com mais força e estabilidade, aproveitando o canal já limpo pela primeira. Nos próximos anos saberemos se isso se sustenta no tênis, e o primeiro grande teste foi adiado para daqui a três semanas em Nova York.

Publicado originalmente na Edição 005 →

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