O balanço de Fonseca
Uma leitura de Montreal, já olhando para Cincinnati.
Em uma análise limitada aos resultados, o Masters 1000 de Montreal de João Fonseca foi um torneio que seguiu o roteiro previsto: ele venceu quem esperávamos que vencesse e perdeu para quem era de fato a pedra no caminho. Nenhuma surpresa, e quem lê o BTL sabia que as oitavas de final contra Shelton seriam o provável teto. No tênis, porém, o resultado frio costuma não contar toda a história — e é exatamente isso que temos aqui.
A estreia contra Tsitsipas na segunda rodada (teve bye na primeira) era uma armadilha perfeita. De um lado, o experiente grego vinha de ótima sequência, incluindo um título no 250 de Gstaad (saibro), um jogo duríssimo contra De Minaur (top 7) em Washington e três vitórias já em Montreal (duas no quali e a primeira rodada). Do outro, o brasileiro não competia há mais de um mês (desde a sua eliminação em Wimbledon), optando por realizar um período de treinos no Rio de Janeiro e encaixar agendas com patrocinadores (aqui incluída a participação no UTS).
Como era de se esperar, o adversário oculto mencionado no BTL 004 apareceu. Fonseca estava claramente sem ritmo de jogo e com bastante dificuldade de desenvolver seu tênis agressivo. Para a sorte dele (e nossa), Tsitsipas estava enfrentando seus próprios demônios e não foi capaz de aproveitar as muitas oportunidades que teve – converteu apenas 2 break points em 5 chances e entregou 30 erros não forçados. Ainda assim, João fez o que se espera dos melhores: ganhar mesmo em um dia ruim. Um placar amarrado de 7-6 7-5, mas suficiente para afastar o fantasma do ano passado.
Na rodada seguinte contra Casper Ruud, João seguiu mostrando falta de ritmo e, fosse o tênis um esporte mais objetivo, o brasileiro teria perdido o primeiro set de forma categórica. Foram inacreditáveis 7 break points enfrentados somente nos seus três primeiros games de saque, dos quais apenas um foi aproveitado pelo norueguês. O que de nada serviu: após finalmente conseguir a quebra, Ruud permitiu que ela fosse devolvida no game seguinte, ressuscitando Fonseca e fazendo com que o primeiro set fosse para o tie-break. No desempate, o brasileiro levou a melhor após muitos erros dos dois e 5 mini-breaks trocados – set finalizado em 7-6(6).
Apesar de não ter jogado bem, João mostrou no primeiro set contra Ruud outras duas qualidades típicas dos melhores: crescer em momentos de pressão – qualidade que tem uma importância absoluta no tênis – e saber aproveitar quando a sorte sorri, pois transformar sorte em resultado é menos comum do que parece.
O brasileiro voltou do intervalo mais equilibrado e jogou seu melhor set em todo o torneio. Sacando bem (71% de primeiro saque em quadra), trabalhando melhor os pontos (apenas 7 erros não forçados, ante 18 no set anterior) e mantendo a agressividade (16 winners), João quebrou o saque de Ruud na primeira chance e controlou o jogo até fechar em 6-3. Assim, João saiu de quadra com um 2 a 0 mentiroso e um encontro marcado com o cabeça 5, defensor do título e futuro bicampeão, Ben Shelton (você já sabia, não é spoiler).
Duas edições atrás, dissemos que o jogo com Shelton pelas oitavas de final seria do americano para perder. E ele até que tentou – foi quebrado no começo do primeiro set e depois novamente no começo do segundo –, mas João não conseguiu aproveitar. Nas duas vezes em que esteve à frente na partida, cedeu a quebra quando liderava o game por 40-15, e em um desses games chegou a ter quatro game points.
Perder de 6-3 7-6 para um top 10 não deveria ligar qualquer sinal de alerta, especialmente se considerarmos que esse resultado veio num dia em que nada funcionou. O saque não entrou: nenhum ace e 3 duplas-faltas; apenas 58% de pontos ganhos com o primeiro saque; e velocidade média baixíssima nos dois serviços – 179 e 157 km/h, respectivamente. A devolução não existiu: apenas 22% dos primeiros saques devolvidos e 33% dos segundos saques. O jogo não fluiu: 15 winners contra 32 erros não forçados; e apenas 2 break points convertidos em 5 chances. Ou seja, um dia para ser esquecido.
E o brasileiro nos mostrou, mais uma vez, uma qualidade vista nos melhores: saber esquecer, se perdoar e virar a página – seja de um ponto, de um jogo, de um torneio ou de uma temporada inteira. A página virada de João veio na forma de vitória sobre o perigoso Van de Zandschulp na estreia em Cincinnati, onde apresentou um tênis mais próximo daquele que nos acostumamos a ver.
Publicado originalmente na Edição 006 →