Vida longa ao Rei Arthur
Em Cincinnati, uma coroação há muito aguardada.
Em um jogo marcado por sets altamente desequilibrados, a joia francesa Arthur Fils derrotou o americano Frances Tiafoe (parciais de 6-3, 1-6 e 6-0) para erguer o troféu em Cincinnati. Aos 22 anos, Fils é o primeiro francês a vencer um Masters 1000 desde 2014, quando Tsonga triunfou no Canadá. Além disso, ele se junta a Mensik como os únicos nascidos a partir de 2004 a ganhar um torneio deste porte.
Com o resultado, Fils ocupará a 11ª posição no ranking da ATP e será o 5º na corrida para o Finals. Nada mal para quem ficou afastado por cerca de 9 meses devido a uma fratura por estresse na lombar e retornou ao circuito apenas em fevereiro deste ano.
O jogo. Fils começou avassalador (ganhou 12 dos 13 primeiros pontos) e levou o primeiro set sem qualquer susto. Durante toda a primeira parcial, a expressão de Tiafoe era de absoluta incredulidade com o nível apresentado pelo adversário. Compreensível: 6 aces; nenhuma dupla falta; 13 winners; apenas 5 erros não forçados; 87% de pontos ganhos com o primeiro serviço; 88% de pontos ganhos com o segundo serviço; e nenhum break point enfrentado. Uma verdadeira aula.
Após ver Tiafoe sem qualquer resposta para as difíceis perguntas feitas por Fils no primeiro set, tive certeza de que o segundo set seria protocolar, um mero adiamento do fim inevitável. Acontece que tentar prever o tênis é como tentar prever o movimento do dólar – uma tarefa dos tolos, como dizem os economistas.
O segundo set viu uma queda de produção enorme de Fils. Foram 15 erros não forçados, apenas 44% de primeiro saque em quadra e somente 40% de pontos ganhos com o segundo saque. Enquanto isso, do outro lado da rede, Tiafoe teve uma leitura perfeita: percebendo o mau momento do rival, passou a jogar com margens maiores e com paciência para esperar um erro de Fils ou uma bola mais curta para atacar – bem diferente do seu instinto natural.
Essa leitura pode parecer óbvia, mas não é. A capacidade de levantar a cabeça e perceber os sinais que o adversário está transmitindo é pouco comum no tênis, esporte individual no qual os treinadores infelizmente têm função secundária e os jogadores acreditam que todas as respostas estão dentro de si.
No terceiro set, foi a vez de Tiafoe cair de produção, e de forma drástica: nenhum ace; 3 duplas faltas; apenas 40% de primeiro saque em quadra; apenas 25% de pontos ganhos com o primeiro serviço; apenas 33% de pontos ganhos com o segundo serviço; 12 erros não forçados; e apenas 2 winners. O 6-0 não foi reflexo de um tênis espetacular de Fils, mas sim de uma apatia por parte de Tiafoe, que chegou a receber atendimento médico antes do set.
Nada que diminua o tamanho da conquista de Fils. O jovem francês leva na mala mais do que uma semana impecável e o maior título da sua carreira. Ele leva a certeza de que merece estar no topo e de que seu corpo agora é arma, e não fraqueza.
A leitura. Se tênis é momento e confiança, Arthur Fils tem os dois. E sem Sinner na chave, com Alcaraz voltando de quatro meses de molho, Zverev não conseguindo se impor e Djokovic finalmente perdendo a luta contra o tempo, o que impede o rei de Cincinnati de cobiçar o prêmio maior? Essa é fácil: absolutamente nada.
Publicado originalmente na Edição 007 →