A decisão de Sinner e o esvaziamento de Montreal
O que a desistência do nº 1 representa.
Jannik Sinner está fazendo a temporada mais dominante da era pós-Big 3 — e de qualquer era se considerarmos apenas Masters 1000. O italiano venceu todos os cinco disputados em 2026 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madri e Roma) e garantiu, ainda, o Career Golden Masters: vencer os nove Masters na carreira, clube que até maio tinha um único sócio, Novak Djokovic. Se somarmos o título de Paris, em novembro passado, a conta chega a seis Masters 1000 consecutivos, algo que ninguém havia feito. Nem Djokovic, nem Nadal, nem Federer.
E foi essa dominância que deu margem a uma pergunta que sempre pareceu meramente teórica: é possível vencer os nove Masters 1000 no mesmo ano? O recorde é de cinco — além de Sinner neste ano, Djokovic conseguiu em 2011 e 2015 e Nadal alcançou a marca em 2013.
Sinner ainda teria pela frente Canadá, Cincinnati, Shanghai e Paris, e, com Alcaraz voltando de lesão e provavelmente longe do seu melhor nível pelos próximos meses, o caminho parecia tão aberto quanto poderia estar para um feito dessa magnitude.
Apesar do cenário ideal, na última sexta-feira Sinner optou por não responder à pergunta, e sim torná-la inócua: abriu mão de Montreal para, nas palavras dele, “priorizar minha saúde” — e chegar inteiro ao US Open.
A decisão diz mais sobre o tênis do que sobre Sinner — e expõe três portas que merecem ser abertas.
A primeira: a obrigatoriedade dos Masters 1000 é de fachada. No papel, exceto por Monte Carlo, os torneios são mandatórios para os melhores; na prática, qualquer jogador pode alegar lesão — e sempre haverá uma lesão subjacente para ser alegada em um esporte absolutamente desgastante como o tênis. A ATP, que não tem grande interesse em multar suas estrelas, historicamente faz vista grossa. Este não é o espaço adequado para um juízo de valor elaborado, mas regra que não pune não é regra, é sugestão.
A segunda: os Masters valem menos porque os Slams passaram a valer tudo. A era do Big 3 reduziu a discussão sobre o melhor da história a uma contagem de Grand Slams — e a consequência silenciosa foi rebaixar todo o resto a moeda de troca. Houve um tempo em que abrir mão de um Masters para descansar era impensável; hoje é gestão de carreira elogiada (nós mesmos elogiamos a de João Fonseca na edição passada). O jogador que escolhe entre Masters e Grand Slams não está traindo o calendário — está lendo corretamente a tabela de valores que o próprio tênis escreveu.
A terceira é a que explica o esvaziamento de Montreal: o novo formato mudou o preço. Desde que os Masters incharam de uma semana para quase duas, o custo de disputá-los deixou de ser medido em jogos e passou a ser medido em dias — mais viagem, mais hotel, mais tempo sob estresse, ainda que com folgas entre as partidas. Três eventos assim em sequência (Canadá, Cincinnati, US Open) representam um mês e meio ininterrupto de competição. Neste cenário, a decisão dos melhores jogadores (aqueles que sempre chegam aos últimos dias dos torneios) é óbvia: escolher um 1000 para sacrificar.
E o sacrificado da vez, repetindo o que ocorreu em 2025, foi Montreal. Sinner e Djokovic desistiram no mesmo dia; Alcaraz, ainda se recuperando, nunca chegou a se inscrever. Pelo segundo ano consecutivo, portanto, o Masters do Canadá não terá os três melhores tenistas do mundo. Enquanto isso, Cincinnati — a três semanas de distância, colado no US Open — deve ter a chave completa.
Quem perde? Todos. O torcedor, que pagou para ver os melhores e não verá. O torneio, que já teve campeões como Federer, Nadal e Djokovic e se vê rebaixado a evento de segunda prateleira. Os patrocinadores, que investiram pesadamente contando com a atenção que a presença de Sinner, Alcaraz e Djokovic garante. E, por fim, o tênis, que inexplicavelmente trabalha contra si e causa a depreciação dos seus ativos.
O copo meio cheio: uma consequência positiva — provavelmente a única — é que o tabuleiro de Montreal ficou novamente aberto como raramente fica um 1000. Popyrin (2024) e Carreño Busta (2022) souberam aproveitar essa oportunidade e garantiram os maiores títulos das suas carreiras. Para quem leu o BTL 002, digo uma coisa: parece que “a melhor oportunidade para Fonseca” acabou de ficar ainda melhor.
Publicado originalmente na Edição 003 →